
3ª FLIP, Paraty, Julho de 2005


Ou quem sabe menos do que isso:
apenas uma pista, um indício
do horizonte a ser inscrito
pedra a pedra, ilha a ilha.
˜ Alberto Martins, in: Cais



32.
Eu não quero mudar o mundo.
Não tenho tempo para isso.
Quem quer mudar o lugar do mundo actua como quem muda o lugar de um móvel:
Empurra primeiro para um lado,
foi força demais,
empurra então para o outro lado,
agora com força de menos,
depois mais um pequeno toque para lá
e um ainda mais pequeno toque para lá,
e agora sim: o móvel está no lugar.
Depois abrimos o móvel e vemos que os copos que estavam lá dentro se encontram todos partidos.
Estão a ver?
Os copos todos partidos.
Que aborrecimento.
Não nos lembrámos da fragilidade do vidro.
˜ Gonçalo M. Tavares, in: O Homem ou é tonto ou é mulher
3ª FLIP, Paraty, Julho de 2005

"Faça como o velho marinheiro
que durante o nevoeiro
leva o barco devagar"
no show de abertura do Paulinho da Viola



"... entre o galope do sonho e o riso a cavalo..."
˜Ariano Suassuna, curando gripes no domingo de manhã


3ª FLIP, Paraty, Julho de 2005





"Perdi o dia mas ganhei o mundo
mesmo que por trinta segundos"
˜ Paulo Henriques Britto
O Homem ou é tonto ou é mulher, de Gonçalo M. Tavares,
Casa da Palavra
Esta foi a capa que fiz para o livro deste autor português. Ele é um dos convidados oficiais da FLIP, que começa amanhã, e o livro, que é sensacional, vai ser lançado lá. São 50 narrativas curtas e, para o miolo, fiz ilustrações tipográficas.


17.
Não há melhor sítio para estar do que estar contente.
Só percebi isso tarde de mais, apesar de ainda ser muito novo.
Um dia fui para o pólo mais frio por causa do calor e lá não me senti bem.
Num outro dia fui para o pólo mais quente por causa do frio e também lá não me senti bem.
Decidi, então, deixar de andar de um lado para o outro.
É preferível a angústia nos momentos em que estamos parados do que quando viajamos.


3.
Se quiseres telefona-me.
Estou morto por voltar a viver.
Tenho algas nos pés.
Os meus ouvidos fecharam para obras.
Quando abro os olhos só consigo ver para dentro.
Chamam-me egoísta,
Mas eu insisto em considerar-me gênio.
De resto, tudo bem, se não fosse esta produção contínua de desespero.
Tenho uma fábrica de desespero debaixo da língua.
Por isso falo tão pouco.
Quero tapar a chaminé da fábrica com os lábios.
O de cima, assim...
E o de baixo, assim...
(fecha a boca)

Foto da capa: Stolen Kiss © Christian French/CORBIS


























